Doença e cura II

Eliseu recusa os presentes de Naamã, Pieter de Grebber
Falando agora especificamente da cura, o Primeiro Testamento não faz restrições à prática da medicina. Isaías a emprega para curar Ezequias (IIRs 20.7), como também a administração de alguns remédios é por ele recomendada, mas a prática da magia ligada à idolatria é nitidamente proscrita em todas as suas páginas, porque elas contaminam não somente a relação com Deus, mas também a própria medicina. Antes de tudo, é a Deus que se deve recorrer,
pois ele é o Senhor da Vida: Vede, agora, que Eu Sou, Eu somente, e mais nenhum deus além de mim; eu mato e eu faço viver (Dt 32.39a). É ele quem fere e é ele quem cura: eu firo e eu saro; e não há quem possa livrar alguém da minha mão (Dt 32,39b). As pessoas sempre disseram, mesmo naquele tempo, que Deus é o médico dos médicos ou o médico por excelência, mas poucos se deram conta de que este era um estatuto dado a Moisés, que pode ser encontrado em Êxodo 15.26, que diz: Se ouvires atento à voz do Senhor, teu Deus, e fizeres o que é reto diante dos seus olhos, e deres ouvido aos seus mandamentos, e guardares todos os seus estatutos, nenhuma enfermidade virá sobre ti, das que enviei sobre os egípcios; pois eu sou o Senhor, que te sara. Não é diferente também nos livros deuterocanônicos, pois o anjo enviado para curar Sara chamava-se Rafael, que significa Deus cura (Tb 3.17).

Cientes desta determinação os enfermos procuravam os representantes de Deus, sacerdotes e profetas, para confessarem humildemente o seu pecado e implorarem a misericórdia de Deus, que tanto pode chegar através de um milagre como pela ingestão de um medicamento. Ambos os casos eram sinais de que Deus havia atendido as suas preces e mais uma vez se dispusera a curar a humanidade pecadora. A prática da medicina em si era muito dificultada pela restrição que havia na lei quanto ao contacto com cadáveres e a aversão ao sangue, por isso, os povos vizinhos, como os egípcios, obtiveram mais avanços nesta ciência. Mas o papel do sacerdote e do profeta não se restringia apenas a cura física. Excetuando-se alguns casos em que até mesmo a morte fora vencida pela ressurreição de algumas pessoas, como Eliseu fez com o filho da viúva de Sarepta, a cura de doentes ocupa um lugar de destaque nos textos sagrados. Contudo, nenhum profeta é considerado autor da cura, esta era uma das atribuições exclusivas de Deus, que a concedia a quem bem quisesse.

O episódio da cura de Naamã em II Reis 5 mostra todo o desenrolar do processo da cura, a sua competência e as suas consequências. Mostra um poderoso general que se sujeita a opinião de uma menina escrava, mostra um rei que se acovarda diante de um desafio monumental, mostra um profeta que não dá a mínima importância ao opressor e não faz consideração ao elevado posto que Naamã ocupava no exército sírio. Mostra um doente que fica indignado diante da ridícula e humilhante prescrição do profeta. Mostra o seu servo dedicado e consciencioso que o faz voltar atrás na intempestiva decisão. Mas mostra acima de tudo que Deus não faz curas sob promessas de retribuição ou sacrifícios, e que está de prontidão para punir aqueles que em seu Nome assim procedem. É bom que este texto seja analisado mais profundamente, porque ele encerra uma lógica pouquíssimo usada nos dias de hoje. Como o próprio Jesus lembrou que em Israel havia leprosos em profusão, mas o escolhido para ser curado era estrangeiro, inimigo declarado do povo que dizia ser de Deus. O processo que vai da doença à cura ainda encerra mistérios que a razão humana não consegue decifrar. Porque Deus cura uns e não cura outros não pode ser entendido pelos olhos da razão, mas precisa ser aceito pelos olhos fé, mesmo que isso nos custe caro.

O fim da doença, o que se pode chamar de a cura definitiva de todos os males estava sempre presente na expectativa do povo, quer fosse pelo fim dos tempos ou pela chegada do Messias. O profeta Isaías foi quem melhor entendeu esta associação da revelação plena de Deus no fim dos tempos com o fim das enfermidades e de todas as mazelas: Então, se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará; pois águas arrebentarão no deserto, e ribeiros, no ermo. A areia esbraseada se transformará em lagos, e a terra sedenta, em mananciais de águas; onde outrora viviam os chacais, crescerá a erva com canas e juncos (Is 35.5ss). Em um mundo livre do pecado deve-se esperar que as consequências do pecado também desapareçam, mas isso de forma alguma se dará pelo esforço humano, mas sim por uma intervenção drástica de Deus na história, quando o Justo tomar sobre si as nossas enfermidades e nos curar pelas suas pisaduras (Is 53.4ss)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...