Crer para ver ou ver para crer? III

Ressurreição da filha de Jairo, Vasily Polenov (1844-1972)
Quem leu apenas estas duas últimas meditações, vai imaginar, com toda justiça, que eu fiz apologia à fé baseada em provas em detrimento da fé intuitiva. Pode ser que sim, mas tenho como atenuante que em outras meditações, como por exemplo, em Entre a Fé e a Razão, parte I e parte II, fiz exatamente o contrário, porque na ocasião julguei tratar-se de outro contexto, onde a razão perde espaço para a fé. É essa orientação que a mensagem cristã segue, diferentemente de se basear no rigor de uma lei inflexível, que é aplicada a todos sem distinção ou consenso, esta fé pode ser traduzida nas simples, porém, incisivas palavras de Jesus: Ouvistes o que foi dito aos antigos? Eu, porém, vos digo.

Dito isso, voltemos à nossa realidade, a realidade que diz que de nada importa a minha opinião ou a opinião de quem quer que seja sobre este dilema da fé trazido à tona nestes dois últimos dias. Importa sim como Jesus tratou desta questão, e como dividiu a sua atenção entre os viram e creram e os que não viram e creram. Importa observar como a questão foi resolvida, pois não foi fundamentada na fé cega e nem na lucidez da razão. Basta que observemos a hora em que Jesus esclareceu esta dúvida. Não foi à luz do dia, na clarividência dos fatos e iluminado pelas mentes privilegiadas e inquiridoras. Mas também não foi na escuridão em que se dá o salto decisivo da nossa vida. Foi ao cair da tarde, no lusco-fusco como os antigos gostavam de dizer. Lusco, de quem enxerga mal, com fusco, de esfumaçado. Esta hora proposta por Jesus não privilegia um dos lados e nem determina quem está com a razão, porque sua proposta não era anunciar um estado monolítico que racharia de vez esta questão.

Esta é uma questão melindrosa e que pode muito bem ser decisiva para a vida de dois tipos de cristãos: aqueles que possuem a singeleza da fé adolescente e que ainda necessitam de orientação e cuidados, e aqueles que já tiveram ao longo de uma longa caminhada a sua fé provada pela aflição dos infortúnios. Pelo que se pôde observar, nem todos do estreito grupo dos doze escolhidos por Jesus viviam a sua fé o mesmo estágio. Havia entre eles crédulos por natureza, como se supõe ter sido João, o evangelista, como também os céticos de nascença, como Tomé. Mesmo consciente dessa diversidade, Jesus não fechou questão sobre qualquer posicionamento, abraçou a todos como filhos amados.

Infelizmente esse ainda é o grande motivo da cisão das igrejas: a imposição de uma forma de pensar sobre outra. Logicamente que a fé cristã tem as suas cláusulas pétreas, mas há de se fazer ressalvas às demais, como bem disse John Wesley: Quanto a todas as opiniões que não danificam as raízes do cristianismo, nós pensamos e deixamos pensar. Paulo, o mais radical teólogo primitivo colocou entre os atributos do amor esta dúvida quando afirmou que o que conhecemos é apenas parte de um todo inominável.

Ver para crer que Jesus venceu a morte, como foi o caso de Tomé, ou crer para ver a sua Talita ser arrancada dos braços da morte, como fez Jairo, são vitórias sobre o obscurantismo de uma fé que prima pelo fanatismo da discriminação e sobre a impiedosa racionalidade crua dos destruidores de sonhos. Seja qual for a opinião que sustentamos, temos que admitir que para atravessarmos as muitas encruzilhadas que o destino nos apresenta, temos que lançar mão de uma ou de outra posição indistintamente, sem corrermos o risco de nos encontrarmos em oposição à vontade de Deus. Quem nos assegura isso não é a certeza do ver e nem a voluntariedade do crer. É um Pai amoroso que nos espera de braços abertos. Um Deus cujo amor, ainda que superficialmente, pode e deve ser cantado nos versos de mais duzentos hinos compostos pelo missionário português Henry Maxwell Wright, como este a seguir.
Inda que indigno foste escolhido,
Jamais vacile, porque te amei.
Quem dos meus braços pode arrancar-te?
Seguro sempre te guardarei!
Oh! Não temas, porque eu contigo sempre serei.
Oh! Não temas, porque eu nunca te deixarei.


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